2016
Acrílico e tinta da china sobre tela · 75×122 cm (pormenor) · Col. particular
Destaques
Screamer IV
60×60 cm · acrílico sobre tela · 2018
Col. particular
Screamer V
70×70 cm · acrílico sobre tela · 2018
Col. particular
Paisagem Transversal XII
33×99 cm (tríptico) · acrílico sobre tela · 2019
Col. autor
Paisagem Transversal XIII
33×99 cm (tríptico) · acrílico sobre tela · 2019
Col. particular
Paisagem Transversal XIV
30×60 cm (díptico) · acrílico sobre viroc · 2019
Col. particular
Paisagem Transversal XV
30×60 cm (díptico) · acrílico sobre viroc · 2019
Col. particular
Paisagem Transversal XVI
30×60 cm (díptico) · acrílico sobre viroc · 2019
Col. particular
Paisagem Transversal XVII
50×75 cm (díptico) · acrílico sobre tela · 2019
Col. autor
Paisagem Transversal XVIII
60×120 cm (díptico) · acrílico sobre tela · 2019
Col. particular
Paisagem Transversal XIX
70×140 cm (díptico) · acrílico sobre tela · 2019
Col. particular
Paisagem Transversal XX
80×80 cm · acrílico sobre tela · 2019
Col. particular
Paisagem Transversal XXI
33×99 cm (tríptico) · acrílico sobre tela · 2020
Col. autor
Paisagem Transversal XXII
80×160 cm (díptico) · acrílico sobre tela · 2020
Col. particular
Paisagem Transversal XXIII — A Montanha
80×140 cm (díptico) · acrílico sobre tela e polyester · 2020
Col. particular
Montanha I
33×66 cm (díptico) · acrílico sobre tela · 2020
Col. particular
Montanha II
33×66 cm (díptico) · acrílico sobre tela · 2020
Col. particular
Montanha III
33×66 cm (díptico) · acrílico sobre tela · 2020
Col. particular
Álamo Azul
80×90 cm · acrílico sobre tela azul · 2020
Retrato do escritor e poeta Álamo Oliveira. Integrado na exposição coletiva de retratos no âmbito das Comemorações do 75.º Aniversário do autor, BPARLSR, Angra do Heroísmo, 2020. Capa da publicação «O Meu Coração é Assim».
Fotografia Antero Ávila
Ilha Terceira, Açores — Portugal, 1973
Licenciado em Artes Plásticas — Pintura pela Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa.
Prémio
Arte Hoje 2014
Sociedade Nacional de Belas Artes, Lisboa
Coleções públicas
Arquipélago — Centro de Artes Contemporâneas, Ribeira Grande · Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Ponta Delgada · Museu de Angra do Heroísmo · Direção Regional de Estudos e Planeamento — Açores · Sala V.I.P. do Aeroporto Internacional das Lajes · Coleções particulares em Portugal, Áustria, Noruega e Estados Unidos.
Encomendas & projectos
Ana Nolasco — in: Atlântida — Revista de Cultura, Volume LXVIII, Instituto Açoriano de Cultura, 2023.
Neste ensaio, Ana Nolasco analisa a série Paisagem Transversal (2016) de Rui Melo no contexto de uma reflexão mais ampla sobre as representações de islandscapes nos arquipélagos dos Açores e da Madeira. A autora situa o trabalho de Rui Melo numa linha experimental pictórica do encontro fenomenológico com as ilhas vulcânicas — na contracorrente da visão pitoresca — que já se manifesta em gerações anteriores de pintores como José Nuno da Câmara Pereira ou César Manrique.
Nolasco destaca o carácter telúrico das Paisagens Transversais, que reflectem uma íntima relação com «um território estranho que emerge das ilhas vulcânicas e, em particular, da Ilha Terceira: destaca-se pela ausência de horizonte e pela imersão na Terra, nas coisas abaixo da superfície». Nas pinturas de Rui Melo são os materiais que falam, sem serem submetidos à vontade do pintor, revelando de forma espontânea um acordo análogo ao da natureza — «paisagens interiores que evocam, aproveitando o acaso do próprio desenvolvimento dos materiais, numa atitude aberta ao fluir da natureza». A autora argumenta que, através de um gesto não dominador sobre os materiais, Rui Melo testemunha o seu respeito e sintonia para com as forças telúricas, parte integrante da sua própria natureza, enquanto ilhéu.
A versão original em inglês foi publicada na revista SHIMA: The International Journal of Research Into Island Cultures, Vol. 13, n.º 1, 2019 (Island Cultures Research Centre, Macquarie University, Sydney — Austrália).
in: Diário Insular, terça, 10 de outubro de 2023, pág. 5. Em Angra do Heroísmo.
Foi inaugurado, no passado domingo, um monumento que assinala os 80 anos do desembarque dos britânicos em Angra do Heroísmo. «A peça alusiva aos 80 anos do desembarque das forças militares britânicas em Angra do Heroísmo pretende assinalar este acontecimento histórico que teve lugar no Porto das Pipas, no dia 8 de outubro de 1943, com a chegada do grupo 247, num total de 3000 homens e equipamento militar diverso, permanecendo na ilha até 3 de outubro de 1946, no contexto de ações militares dos Aliados na Segunda Guerra Mundial», explica Rui Melo, autor da peça escultória.
O monumento «evoca a importância e relevância geoestratégica que a ilha Terceira teve neste acontecimento de escala global», afirma Rui Melo. O artista acrescenta que «numa perspectiva simbólica transforma os barcos de guerra em barcos de papel, porém desenhados em aço, numa referência, por um lado, à fragilidade do equilíbrio civilizacional comprometido à época». Por outro lado, «a força do aço foi necessária para o alcance da paz e dos valores humanistas».
As embarcações chegaram numa altura de «grave contexto político global, por sua vez (e talvez sem essa percepção), serão eles os mensageiros de uma nova vida para a ilha Terceira que, depois deste acontecimento, nunca mais foi igual, moldada que foi pelos benefícios socioeconómicos daí decorrentes», disse Rui Melo.
A peça, «construída em aço corten», simboliza os barcos que «nos seus porões de aço trouxeram a delicada esperança e foram os mensageiros de uma vida melhor para muitos habitantes que a pátria mãe, por si só, nunca foi capaz de proporcionar». No dia 14 de outubro, realizou-se, pelas 20 horas, no Salão Nobre dos Paços do Concelho, uma conferência: 80 anos da chegada dos britânicos aos Açores: dos planos de conquista das ilhas de 1941 à chegada à Terceira em outubro de 1943, pelo historiador Pedro Gonçalves Ventura.
Exposição Das Montanhas Profundas — Museu dos Baleeiros, Lajes do Pico, janeiro 2021
Cartaz da exposição Das Montanhas Profundas — Pintura de Rui Melo, Museu dos Baleeiros, Lajes do Pico, janeiro–primavera 2021. Organização MiratecArts / Montanha Pico Festival.
Rui Melo e Terry Costa (dir. artístico da MiratecArts). Fotografia de Pedro Silva.
in: Ilha Maior, 22 de janeiro de 2021.
«Das Montanhas Profundas» é o título da exposição a solo de Rui Melo, patente na galeria do Museu dos Baleeiros até à primavera. É a estreia do artista terceirense na ilha montanha, integrada na sétima edição do Montanha Pico Festival, um projecto da MiratecArts, que acolhe assim o artista #2000 através da sua programação na ilha. Terry Costa, director artístico da MiratecArts, expressou a sua felicidade com a participação de Rui Melo, salientando que «Rui Melo é um dos mais talentosos artistas desta geração açoriana. Não tem medo de comunicar através de traços contemporâneos nas suas telas, deixando-nos poemas ilhéus para cada apreciador decifrar o seu encanto. É um prazer presentear o nosso artista #2000 no Pico, ao celebrar 9 anos de MiratecArts, com esta exposição no melhor espaço galeria da ilha.»
in: Diário Insular, 27 de janeiro de 2021. Fotografia de Pedro Silva.
A exposição surgiu de um convite que me foi feito por Terry Costa, director artístico da MiratecArts, no âmbito da 7.ª edição do Montanha Pico Festival. O conceito «Das Montanhas Profundas» proposto para este evento específico resulta como o epílogo da série, constituída na sua totalidade por vinte e três peças em que as últimas três foram apresentadas exclusivamente nesta exposição, terminando com a Paisagem Transversal XXIII — A Montanha.
Existe, de facto, uma ligação muito estreita com trabalhos produzidos num tema específico que desenvolvi desde 2014 e que agora encerro, intitulado Paisagem Transversal, que teve uma mostra mais expressiva na última exposição com o mesmo título que apresentei na Biblioteca Pública e Arquivo Regional Luís da Silva Ribeiro de Angra do Heroísmo, no final de 2019.
Sobre o condicionamento da pandemia: «A criação artística persiste e muitas vezes reforça-se nas alturas mais difíceis. O condicionamento existente, para além do evidente risco da doença que nos assombra a todos, no caso específico das artes visuais tem um reflexo negativo nas questões de natureza logística, mas não no pensamento nem na criatividade. Entendo que cada ato de cultura, seja ela mais ou menos directo no seu conteúdo, constitui por si só um manifesto de resistência.»
in: Diário Insular, 19 de janeiro de 2021.
in: Jornal do Pico, 22 de janeiro de 2021.
Das Montanhas Profundas é o título da exposição a solo que ficará patente no Museu do Pico, na galeria do Museu dos Baleeiros, nas Lajes do Pico, até à primavera. É a estreia do terceirense Rui Melo na ilha montanha e vem no seguimento da programação da sétima edição do Montanha Pico Festival, um projecto da MiratecArts, que assim acolhe o artista #2000 através da sua programação na ilha.
Press online — Janeiro de 2021
Vistas da exposição Das Montanhas Profundas — Museu dos Baleeiros, Lajes do Pico, 2021. Fotografia de Pedro Silva.
A mostra que aqui se deixa vai de António Dacosta a Rui Melo, passando por outros nomes açorianos ou não, todos eles diferentes na sua relação com as telas e as cores e todos desenvolvendo um discurso plástico que fascina e conduz ao entendimento do Belo com a simplicidade das leituras simples. Na verdade, é o uso diferenciado de uma gramática policromática, que se distinguirá Rui Melo, em contenção continuada das cores, de Manuel Policarpo (Vasco Pereira da Costa), este pela sua exuberante expressão formal. Como também difere o quase hiper-realismo de Deodato Sousa do incansável domador da matéria (suportes de madeira, tela, pele, etc., aos conseguimentos magmáticos de inspiração vulcânica) José Nuno da Câmara Pereira.
(Excerto do prefácio)
Exposição Desvendar — Arquipélago, Centro de Artes Contemporâneas, 2020
in: Jornal Açores 9, 17 de junho de 2020. Exposição Desvendar — uma mostra da Coleção Arquipélago, Arquipélago — Centro de Artes Contemporâneas, Ribeira Grande.
A exposição Desvendar, que assinala a reabertura do Arquipélago após o encerramento forçado pela pandemia, mostra pela primeira vez ao público um conjunto de obras da sua coleção. A mostra, patente de 21 de junho a 6 de setembro, oferece a oportunidade de apreciar 20 obras de 13 artistas do acervo do Arquipélago nunca antes expostas. Entre os artistas representados figuram Vera Bettencourt, da Graciosa, Rui Melo e Sandra Rocha, da Terceira, André Laranjinha, Sofia de Medeiros, Joe Lima e Maria José Cavaco, de São Miguel.
in: Açoriano Oriental, 28 de junho de 2020. Jornalista Rui Jorge Cabral.
A exposição Desvendar reúne uma selecção de 20 obras de 13 artistas da Coleção Arquipélago, adquiridas entre 2009 e 2020, sendo pela primeira vez mostradas ao público. Entre os artistas seleccionados conta-se Rui Melo, cujas obras integram a coleção do Arquipélago — Centro de Artes Contemporâneas.
Esquerda: Capa do catálogo O Meu Coração é Assim — exposição comemorativa dos 75 anos de Álamo Oliveira, Biblioteca Pública e Arquivo Regional Luís da Silva Ribeiro, Angra do Heroísmo, 2020. Direita: Tribuna Portuguesa (Modesto, California, EUA), 1.ª quinzena de agosto de 2020. Ambas ilustradas com o retrato Álamo Azul, acrílico sobre polyester azul, 80×90 cm, Rui Melo, 2020.
in: JL — Jornal de Letras, 26 de agosto a 8 de setembro de 2020. Artigo de Onésimo Teotónio de Almeida, ilustrado com o retrato Álamo Azul, acrílico sobre polyester azul, 80×90 cm, Rui Melo, 2020.
SHIMA: The International Journal of Research Into Island Cultures, Vol. 13, n.º 1, 2019. Island Cultures Research Centre, Macquarie University, Sydney — Austrália. ISSN: 1834-6057
This article analyses a number of representations of the islandscapes of the Madeira and the Azores archipelagos. These representations highlight an aspect that is generally outside the framework of the hegemonic continental perspective of the islands: ie the fragility, uncertainty, resilience and imperfection of human existence on them and the local experience and knowledge of their inhabitants. The article raises two central questions: in what way can representations of islandscapes contribute to an independent insular imaginary? And what contribution can insular Atlantic criticism offer to the deconstruction of dominant epistemologies? The author argues that the works analysed share an archipelagic aesthetic, in that the deconstruction of dominant stereotypes unleashes a poetic impulse that opens up new ways of thinking about island life and identity.
Regarding Rui Melo's work specifically, Nolasco situates his painting within a broader tradition of Azorean artistic identity, noting how his Paisagem Transversal series engages with the vertical dimension of island landscape — the subterranean, the volcanic, the telluric — rather than the conventionally horizontal and pastoral. His work is read as a form of insular resistance to mainland aesthetic norms, proposing instead an imagery rooted in geological fragility and the experience of living on the edge of the Atlantic.
in: Diário Insular, 4 de outubro de 2019. Jornalista Carina Barcelos.
O pintor terceirense Rui Melo tem uma nova exposição, em que aborda a paisagem numa "perspetiva vertical", contrariando a visão convencional do quase exclusivamente belo. Este conjunto de trabalhos surge como uma consolidação de uma temática que tenho vindo a abordar com este título desde 2014. Acontece que a própria identidade do conceito que move a sua criação se revelou agora mais identificável, no sentido em que houve uma clarificação de uma procura que, no fundo, terá sido muitas vezes o referente do meu trabalho.
A Paisagem Transversal aborda a paisagem numa perspectiva de corte vertical, pretendendo-se uma exploração de camadas de uma "geologia" mística, contrastando com a horizontalidade paisagística convencional que historicamente abordou frequentemente o belo, em parte, numa visão de ingenuidade bucólica ou na herança do sublime romântico.
Questionado sobre a influência dos Açores na sua arte, Rui Melo responde: «Diria que a circunstância de se habitar territórios com as características das ilhas dos Açores, para algumas pessoas — onde me incluo — são uma marca forte numa determinada forma de expressão que aborde questões desta natureza, como será no meu caso através da pintura. No entanto, os Açores são um mero acaso, uma vez que entendo que a abordagem expressiva é a mesma noutro território com características semelhantes.»
in: Diário Insular, 3 de dezembro de 2019. Jornalista Hélio Vieira.
Rui Melo tem patente, até 31 de dezembro, em Angra do Heroísmo, a exposição «Paisagem Transversal» na Biblioteca Pública e Arquivo Regional Luís da Silva Ribeiro. O artista plástico terceirense aborda a forma como a sua obra tem surgido ao longo dos anos.
O texto que tive a felicidade de ter no folheto da exposição trata-se de um excerto do artigo "Islandscapes of the Azores and Madeira in the Art of Nuno Henrique, Maria José Cavaco e Rui Melo" da autoria da Professora Ana Nolasco, publicado no início do corrente ano na Revista SHIMA. A observação que considero pertinente e com a qual me identifico plenamente: «Em poucas palavras, poderia caracterizar o meu trabalho, sobretudo, como um exercício de liberdade que visa explorar relações compositivas bidimensionais entre formas e cores. Relações estas que, na maioria das vezes, não tem qualquer relação com a temática referida anteriormente, valendo por si só, enquanto comunicação visual.»
«Gosto de deixar o trabalho fluir e ele próprio me indicar o caminho. Não tenho neste momento um rumo rigoroso traçado. É possível que esta temática ainda não esteja esgotada.»
Exposição Paisagem Transversal — Biblioteca Pública e Arquivo Regional Luís da Silva Ribeiro, Angra do Heroísmo, 2019
in: Diário Insular, fevereiro de 2016. Entrevista sobre a participação na exposição colectiva em Milão, no Consulado Geral do Equador.
Rui Melo vai expor, no final do mês, em Milão, numa mostra colectiva organizada pela Atlas Violeta Associação Cultural em parceria com a Associazione Culturale Eclettica e com o Consulado Geral do Equador. A obra que foi proposta e aceite pela organização é um quadro sem título, de acrílico e tinta-da-china sobre viroc (painel compósito de madeira e cimento), de 92x92 cm, pintado em 2013. Em sentido lato, a origem geográfica poderá ter, ou não, influência na forma e conteúdo da expressão, não sendo um factor determinante na qualidade da obra.
«Tendo em conta a dimensão dos Açores, todos os eventos que potenciem o alargamento da rede de contactos com pessoas do meio artístico e com novos públicos são importantes para quem tem uma actividade regular no campo das artes. Redes sociais são ferramenta fundamental», disse ao DI.
Esquerda: Catálogo Arte Hoje — Exposição dos Artistas Premiados, Sociedade Nacional de Belas Artes, Lisboa, junho de 2016. Direita: Diário Insular, 21 de maio de 2016.
Em 2014 a Sociedade Nacional de Belas Artes organizou uma exposição designada ARTE HOJE — balanço possível das práticas artísticas de significativo número de artistas portugueses que a ela entendeu concorrer. Diferentes gerações e práticas diversificadas colocaram então ao espectador informado interrogações várias, nomeadamente sobre o papel desempenhado por disciplinas mais tradicionais e outras de recorte bem mais recente.
Um júri de selecção e de atribuição de prémios distinguiu alguns dos participantes, sendo que esta exposição colectiva de oito desses artistas e que agora se apresenta na Galeria Pintor Fernando de Azevedo, representa bem o espírito que informou a citada exposição.
Os trabalhos expostos são percorridos por um inegável, mas não redutor, espírito de contemporaneidade, detectável na infinita subtileza teórica e prática do "bordado" metálico de Ana Lima-Netto e dos seus despojados desenhos; nas metáforas visuais e picturais de Rui Melo, de forte fisicalidade; passando pelo trabalho fotográfico de Martim Brion e Raquel Melgue; pelas litografias de Inês Garcia; o vídeo de Rogério Paulo Silva; a pintura de Filipa Sáragga e Lourenço de Castro.
Em breve a Sociedade Nacional de Belas Artes, neste mesmo espaço, apresentará a obra dos restantes premiados na ARTE HOJE em 2014, concluindo assim a sua pretensão de um balanço que incorporou a Pintura, o Desenho, a Fotografia, a Instalação, a Gravura, o Vídeo e a Escultura.
Lisboa, 6 de Junho de 2016 — Pintores Jaime Silva e Cecília Guimarães
De seis de junho a um de julho, a Galeria de Arte Moderna Fernando de Azevedo, da Sociedade Nacional de Belas-Artes, expõe uma obra de Rui Melo. O artista participa, assim, na exposição colectiva dos premiados do evento «Arte Hoje 2014», que promove o trabalho de artistas portugueses. A oportunidade surgiu precisamente há dois anos, quando Rui Melo respondeu ao «open-call» daquela instituição para participar na exposição, tendo sido um dos 121 seleccionados. Nessa altura, Rui Melo foi um dos merecedores de menção honrosa e um dos convidados a expor, em 2016, na Sociedade Nacional de Belas-Artes.
«Estou muito contente», disse, considerando que a Sociedade Nacional de Belas-Artes é uma «casa» de referência, por onde passaram os nomes maiores das artes plásticas portuguesas. A Lisboa, Rui Melo leva um quadro de três metros de comprimento por 1,25 de altura, um tríptico sem título trabalhado sob viroc.
in: JL — Jornal de Letras, Artes e Ideias, 6 a 19 de julho de 2016. Artigo de Rocha de Sousa.
Em 2014 a Sociedade Nacional de Belas Artes (SNBA) organizou uma exposição designada ARTE HOJE — balanço possível das práticas artísticas de significativo número de artistas portugueses que a ela entendeu concorrer. Diferentes gerações e práticas diversificadas colocaram então ao espectador informado interrogações várias, nomeadamente sobre o papel desempenhado por disciplinas mais tradicionais e outras de recorte bem mais recente.
Os trabalhos expostos são percorridos por um inegável, mas não redutor, espírito de contemporaneidade, detectável na infinita subtileza teórica e prática do "bordado" metálico de Ana Lima-Netto e dos seus despojados desenhos; nas metáforas visuais e picturais de Rui Melo, de forte fisicalidade; passando pelo trabalho fotográfico de Martim Brion e Raquel Melgue; pelas litografias de Inês Garcia; o vídeo de Rogério Paulo Silva; a pintura de Filipa Sáragga e Lourenço de Castro.
Esquerda: Jornal de Notícias, Idalina Casal, 16 de agosto de 2016. Direita: Catálogo ART MAP — Re-Cognition/Re-Conhecimento, Câmara Municipal de Ponte de Lima, agosto de 2016.
A exposição Art-Map tem obras de 140 artistas de 27 nacionalidades e integra um roteiro por nove monumentos históricos e seis espaços comerciais de Ponte de Lima. Subordinada ao tema «Re-conhecimento: arte como um saber visual», o projecto Art-Map viu este ano triplicados os espaços de exposição em relação à primeira edição. A obra de Rui Melo apresentada — Sem Título, 92×92 cm, acrílico e tinta-da-china sobre viroc, 2013 — está patente na Universidade Fernando Pessoa / Casa da Garrida.
Newsletter Investwood/Viroc — «Viroc & Art», julho de 2016.
«Mais do que um suporte improvável de pintura, foi a revelação do Viroc como um elemento fulcral da composição.» — Rui Melo, artista plástico
Desde 2009, Rui Melo, um artista plástico dos Açores, utiliza o Viroc como suporte de pintura, assumindo muita da sua textura e subtileza cromática como parte das suas composições, tendo-se tornado um material marcante na sua actividade como criativo. Em 2015, o artista realizou no Museu de Angra do Heroísmo (Terceira — Açores) uma exposição individual apelidada de «Em Concreto», onde expôs o trabalho principalmente pintado em Viroc. Em 2016, também foi seleccionado no âmbito da Exposição ART MAP — Moving Art Project e vai participar com dois trabalhos pintados em Viroc. Este evento envolveu 120 artistas de todo o mundo.
Newsletter Investwood/Viroc — julho de 2016
«As Cores da Terra» — Documentário de Paulo Henrique Silva, setembro de 2016
Reportagem VITEC — AzoresTV, junho 2016
Obra do artista plástico Rui Melo vista em Milão — RTP Açores
Exposição "Em Concreto", Museu de Angra do Heroísmo, 2015
Começo pelo humor ou pelo gosto de associar ideias que, primeiro, se afiguram inconciliáveis e, portanto, distantes, dando, depois, lugar a uma transição repentina que defrauda a expectativa inicial e nos prepara para uma diferente percepção dessas mesmas ideias. E faço-o pelo modo como Rui Melo invoca, no título desta sua nova exposição, o duplo sentido de concreto, parodiando o significado comum do termo (real, palpável, sólido, objectivo) com o que ele tomou nas artes plásticas, por via do concretismo, ou seja, o de materialização visual de conceitos intelectuais através de formas visuais em movimento, pondo de lado a representação figurativa do real.
Servindo-se de uma paleta concisa e eficaz, que se expande radialmente num apuramento lúdico e lírico, Rui Melo evidencia habilidade para contrabalançar o estático e o dinâmico, através de uma gramática pessoal que particulariza paisagens e pontos de vista, envolvendo-os numa iluminação encenada que conduz o olhar de quem vê até às bordas do abismo ou daquilo que fica, qual trecho emotivo, a percutir dentro do espectador.
Os materiais (suportes e tintas) são, aqui, indissociáveis desse labor de exploração do inesperado, configurando um assombro afim do depois do derrame, quando ao excesso magmático sucede a tranquila e etérea suavidade do azul. Atente-se no cuidado com que em qualquer das obras se ambiciona o precário equilíbrio da tensão entre o que se expande e o que se contrai, entre o excesso e a contenção.
Que inspirações podemos encontrar nestes trabalhos?
Esta exposição vem na sequência de um trabalho que tenho vindo a desenvolver há alguns anos. Interesso-me pela abstracção, pela cor, pela mancha por si só. Nestes trabalhos, especificamente, tenho usado, desde 2009, um material novo, pouco convencional na pintura e mais comum na construção civil — placas compósitas de madeira e cimento. Não sendo um material de pintura, achei interessante usá-las como suporte, assumindo a sua textura. Deixei muitas áreas na sua cor natural, intencionalmente. Daí, também, vem o nome da exposição, "Em Concreto", uma referência ao termo inglês "concrete" e à palavra "concreto" usada no Brasil para cimento.
Relativamente à temática da exposição, o que podem encontrar os visitantes?
Quanto ao tema, as pessoas quando vêm estes trabalhos tendem a remeter o seu referente às minhas origens açorianas. Isso acontece de forma um pouco inconsciente. Não é algo que procure, ainda que não me incomode. O que me interessa são as manchas e as cores e a sua interação plástica.
A nível artístico, que influências mais lhe tocam?
É difícil responder, na medida em que não tenho um pintor ou uma corrente específicas que me influenciem. Admiro desde pintores anteriores ao Renascimento até artistas contemporâneos. Quanto a pintores marcantes na minha vida, posso nomear de Caravaggio a Mondrian, passando por muitos outros — a lista seria longa.
Após um Open Call que recebeu 551 propostas de 301 autores, a exposição ARTE HOJE, organizada pela Sociedade Nacional de Belas Artes (SNBA), apresentou em maio de 2014, uma selecção de 127 obras de 121 autores, de onde se destacam a pintura, desenho e escultura. A exposição esteve patente de 29 de maio a 29 de agosto de 2014 e contou, também, com os artistas convidados: Emília Nadal, Nikias Shapinakis e Zulmiro de Carvalho.
Segundo a organização, com a Exposição ARTE HOJE, a SNBA retoma a prática de convocar os artistas portugueses para uma manifestação maior, que, nas palavras do coordenador, Pintor Jaime Silva "não se pretende inquestionável, mas não deixa de levantar questões – não das menores – sobre o papel da Arte e dos Artistas, no contexto de uma pós-modernidade que aposta demasiado na fragmentação e na disjunção e, em que o autor (o que se define como tal), deve exercitar-se, na formulação de um pensamento crítico, que lhe crie a necessária distância perante qualquer discurso hegemónico."
A esta exposição, acorreu um público interessado que, as estatísticas apontam para cerca de 1500 visitantes. A este interesse público, não terá sido alheio o facto de a revista TIME OUT, em artigo subscrito por Miguel Matos, ter enfatizado a valia desta exposição e a geral qualidade das peças exibidas.
O júri da exposição, atribuiu Menções Honrosas e destacou os artistas que nas diferentes modalidades, terão a possibilidade de expor individual e coletivamente nas instalações da SNBA, de 15 de junho a 15 de julho de 2016, a convite da organização.
Seleccionadas em PINTURA — 63 obras de 61 autores; em DESENHO — 17 obras de 14 autores; em ESCULTURA — 13 obras de 12 autores; em GRAVURA — 9 obras de 9 autores; em INSTALAÇÃO — 6 obras de 6 autores; em VÍDEO — 4 obras de 4 autores; em FOTOGRAFIA — 15 obras de 15 autores.
Artistas Premiados — Deliberação do Júri: «No dia 19 de Junho, reuniu o júri da Exposição ARTE HOJE, e decidiu em acordo com o respectivo regulamento, atribuir Menções Honrosas aos artistas: Benvindo de Carvalho (Pintura); Susana Piteira (Escultura) e Fatima Ferreira (Gravura). Decidiu também convidar os artistas: José António Quintanilha (Fotografia); Rui Tavares (Pintura) e Ana Velez (Pintura), a realizarem exposições individuais na SNBA, no decorrer do Biénio 2015/2016. Ainda deliberou o júri convidar os artistas: Ana Lima-Netto; Raquel Melgue; M.A.S. (Martim Areal Sanches); Lourenço de Castro; Filipa Sáragga; Inês Garcia; Rui Melo e Rogério Paulo Silva, a integrarem exposições coletivas na SNBA, no decorrer do mesmo Biénio.»
Obra selecionada no Open Call ARTE HOJE 2014
Sem título
92×92 cm | acrílico e tinta da china sobre viroc | 2013
Obra proposta para a Exposição coletiva de premiados ARTE HOJE · Galeria de Arte Contemporânea Pintor Fernando de Azevedo · Sociedade Nacional de Belas Artes — Lisboa, junho de 2016
Sem título | 125×300 cm (tríptico) | técnica mista sobre viroc | 2015
Lista geral dos artistas selecionados para exposição ARTE HOJE 2014 — PINTURA:
Ana Velez, Saul Roque Gameiro, Eurico, MAN, Dalila D Alte, Ana Mary Bilbao, Paula Ruivo, Fátima Jorge, Alexandra Santos, Anne Laidam, Tiago Pimentel, M. Covas, Isabel Gama, Filipa Sáragga, Pedro Dutra, Ana Lima Netto, Ana Adão, Ana Araújo Pessanha, Ana Maria, Ana Paula Nunes, Ana Wever, Angela Belindro, Assunção Melo, Benvindo de Carvalho, Catarina Flores, Dóris Fernandes, Ema Berta Cena I, João Moreira, José Robalo, Lourenço de Castro, Manuel Lopes, Marcelo Dantas, M. Lourdes Pinto, Maria Luisa, Marisa Noblejas, Mónica de Morais, Nuno Lorena, Paiva Raposo, Paula Rito, Pedro Espanhol, Rebecca R. F. Ferreira, Ricardo Rianco, Rita Santa Martha, Rui Tavares, Rui Melo, Silvia Marieta, Susana Ribeiro, Teresa Gil, Raimundo, Tilde Lerche Engstrom, Vasco Monteiro, Marília Viegas, Jorge André Catarino, Gracinda Candeias, Juliana Ribeiro, Francisco Ariztia.
in: Time Out Lisboa, 11–17 de junho de 2014, pág. 35. Miguel Matos visita a exposição «Arte Hoje» na Sociedade Nacional de Belas-Artes.
«Nos dias de hoje é já muito raro haver uma instituição artística que abra as suas portas a uma exposição de arte que pretenda reunir o que de novo se faz sem grande atenção a capelas, influências pessoais, tendências da moda ou valores monetários. Mas como a Sociedade Nacional de Belas-Artes está apostada em aproximar-se sem preconceitos de quem produz a arte, assim como de quem a desfruta, foi lançado o desafio que culmina agora com a mostra "Arte Hoje".» Depois de analisadas as 551 peças inscritas, restou um total de 127 obras seleccionadas, de 121 autores, sendo que a pintura é a disciplina que domina, com 63 peças ao todo.
Paisagem Transversal n.º 1 — 125×100 cm | acrílico e tinta da china sobre viroc | 2014
Paisagem transversal é o título do último quadro de Rui Melo. À primeira vista, parece ser mais uma pintura leal à sua caligrafia, mas analisando mais ao pormenor, ela rompe com dois conceitos básicos da historiografia da arte:
1 — Paisagem, ortodoxamente horizontal, é quebrada pela inversão dessa horizontalidade para uma verticalidade própria do retrato. Mas como o próprio título indica, "transversal" justifica essa opção de verticalidade pelo corte que é feito para a visibilidade de um mundo à priori invisível.
2 — Paisagem, da mesma origem etimológica de rosto (paisage/visage), mostra sempre um mundo visível existente no mundo real. Rui Melo mostra além do mundo real, um submundo à partida invisível, não fosse o corte transversal. Mostra duas realidades que, embora diferentes, estão conectadas entre si e são indissociáveis na compreensão sobretudo do mundo à partida visível.
Exposição permanente, a convite da Comissão Diocesana para a Cultura — Açores, 2014
Diário Insular, Álamo Oliveira, 25 de maio de 2014
A Sé Catedral de Angra do Heroísmo acolhe, a partir da Semana Santa de 2014, uma nova Via-Sacra pintada por catorze artistas açorianos, em resposta a um desafio lançado pelo Serviço Diocesano da Pastoral da Cultura. O projecto reuniu duas e três gerações de artistas da região, pontuadas pelos veteranos Carlos Carreiro e José Nuno da Câmara Pereira, e resultou num conjunto pictórico inédito, que nada pretende imitar, antes dizendo a Paixão de Cristo com as linguagens e processos criativos contemporâneos.
A Rui Melo coube interpretar a Estação X — «Jesus é despojado das suas vestes». O artista recorreu ao expressionismo cromático que caracteriza a sua pintura — contido, limpo, sem artificialismos — para construir uma cena de grande intensidade dramática. A figura de Cristo despojada das vestes, representada com rigor e contenção, impõe-se pelo peso simbólico e pela qualidade plástica da execução, integrando-se com naturalidade no conjunto das catorze estações que hoje percorrem as naves da Catedral.
Álamo Oliveira, no texto que assina para o Diário Insular, sublinha que cada artista recorreu aos materiais que melhor entendeu utilizar, preenchendo a tela de acordo com o seu estilo narrativo, e que nenhum se repete, tendo todos acabado por reconstituir, de forma sensibilizante, não só o que foram como o que são os momentos dramáticos da Paixão e Morte de Cristo. O resultado é, nas suas palavras, «no mínimo encantatório».
Diário Insular, 9 de abril de 2014
A notícia do Diário Insular de 9 de abril de 2014 antecipa a inauguração da nova Via-Sacra, que ficaria patente a partir de Sexta-Feira Santa. O jornal destaca que a Sé Catedral de Angra passaria a exibir em exposição permanente as catorze obras encomendadas a outros tantos artistas açorianos, entre os quais Rui Melo. O pároco da Sé, padre Hélder Fonseca Mendes, é citado salientando que se trata de um conjunto pictórico inteiramente novo, saído das mãos de artistas distintos nas tendências, linguagens e processos criativos contemporâneos — para uma Catedral que se vai construindo ao longo dos séculos e que agora tem muito gosto em acolher a marca do nosso tempo.
Diário Insular, Pe. Hélder Fonseca Mendes, 25 de maio de 2014
No texto «Via Sacra Contemporânea», publicado no suplemento DI Domingo de 25 de maio de 2014, o padre Hélder Fonseca Mendes reflecte sobre o percurso evangélico e turístico que as catorze obras configuram nas naves da Sé. Descreve o itinerário pelas estações e assinala o trabalho de Rui Melo na Estação X: o despojamento das vestes de Cristo, interpretado com um expressionismo cromático contido e limpo de artificialismos, que contrasta com o silêncio árido da morte de Cristo e dos seus parceiros de infortúnio, tema da estação seguinte. O autor conclui que esta Via-Sacra é, com certeza, uma das mais originais e belas que se podem apreciar nas igrejas católicas do mundo, constituindo motivo irrecusável para visitar a Catedral de Angra.
in: Diário Insular — Suplemento «Vento Norte» n.º 422, 17 de dezembro de 2009. Texto de Álamo Oliveira.
Rui Melo volta a expor na Carmina Galeria. São trabalhos com dimensões apreciáveis, que, num primeiro olhar, podem deixar a impressão de um decorativismo apurado quer pela exactidão cromática quer pelo movimento que está expresso em cada quadro. Se se quiser intuir outras sugestões visuais, certamente, torna-se clara uma espécie de erupção lávica – erupção ora terna e azulínea ora abrupta e cor de fogo – e que adoçam o nosso olhar sob uma atracção impressionista porque encantatória.
É o próprio Rui Melo que confessa ter uma relação com a obra de arte através dos seus «valores estéticos intrínsecos». Daí que, para ele, o acto de pintar se fique na procura continuada e apetecida de questionar materiais e espaços susceptíveis de serem preenchidos com a sua «escrita» cromática. Na verdade, o artista não assume que tenha de cumprir «funções didácticas, morais e utilitárias», mas, dificilmente, escapa às preocupações de ordem técnica, mesmo quando envereda por experimentalismos laboratoriais, testados à custa de incertezas finalizantes.
Nesta exposição – bastante contida em termos numéricos –, Rui Melo segue por composições fragmentadas, usando dípticos que, curiosamente, resistem parcelarmente, e vai percorrendo, sem alardes, o caminho estético que a si mesmo tem traçado, sem descurar um porfiado trabalho na pesquisa de processos criativos.
Rui Melo acredita que «a pintura é para se ver e não para se falar». Mesmo assim, FAQs é uma lista de questões e respostas que se supõe serem colocadas num contexto específico. FAQs foi o nome dado (apropriadamente?) aos quadros expostos. Apenas um díptico apela a um «Veni Creator Spiritus», como quem quer intervir, porventura de forma discreta, no quanto nos é possível intuir sobre o que é uma peça de arte, que é para se ver e não para se falar.
Álamo Oliveira — Diário Insular, 17 de dezembro de 2009
Ver o Rui Melo entregue, sem quaisquer reservas, aos seus primeiros contactos com as cores, às tentativas de as dispor esteticamente na tela, à sua própria surpresa perante o comportamento, imprevisível da matéria, à forma – digamos que realista – como organizava as suas primeiras paletas, foi o poder fruir de momentos encantatórios que, ainda hoje, retenho como lição sobre o que é isso de ser artista, crescendo. Rui Melo, sem pensar nisso sequer, quando me dava o privilégio de poder ver, num ambiente de intimidade muito amiga e, da parte dele, muito tolerante, ensinava-me, de forma intuitiva também, que nascer com a pancada de artista não é o suficiente para o ser; que o talento, se preguiçoso também não dá; e a imaginação descontrolada pode dar, aquela de «uma no cravo, outra na ferradura». Está provado que talento e imaginação, sem transpiração, conduzirão, quando muito, a um caos de futilidades.
Até frequentar a Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa, as exposições de Rui Melo mostraram-nos a lógica de um caminho percorrido com um fôlego límpido, seguro, meticuloso, subindo, subindo sempre, mostrando uma apetência cada vez mais definida por um entendimento de Pintura – um entendimento prático, quase nada teórico – e que o foram recomendando a espaços cada vez mais internacionais, nomeadamente europeus e americanos.
Mas nada disto foi meteórico, nem sequer repentino. Pelo contrário. Foi a transpiração aliada ao talento e à imaginação, sem qualquer preconceito perante essa forma de dominar o espaço da tela.
Rui Melo sabe deste domínio, conquistando. Em cada quadro, torna-se sempre mais visível a harmoniosa distribuição cromática, mesmo quando recorreu ao figurativo. A lava dos Biscoitos, por exemplo, é duma negridão ostensiva e o seu contraste com a inconstância das cores do mar e do céu não passou despercebido. Quase nos sentimos dispostos a esperar que anoiteça. Lembro sempre o arrepio desse negro franjado de espuma branca e de um mar perdido em azuis que chegavam ao céu.
Mas, ainda mais a meu gosto, as suas experiências com cartão «kapeline». A sua curiosidade vai ultrapassar a condenação sumária de tal material. Ele vai autopsiá-lo, arrancando-lhe a pele de um dos lados. Perante a delicada camada de músculos moles, vai talhá-los ao jeito de goiva, devolvendo-nos uma espécie de pauis marinhos, a que não faltam juncos e musgos. Mais do que a sua captação do inefável plástico, surpreendeu-me a capacidade de enobrecer, em termos de linguagem estética, materiais susceptíveis de serem considerados lixo. E não se trata de qualquer favorecimento à reciclagem. O material sedu-lo enquanto matéria e é essa matéria que ele valoriza utilizando e recriando. Das experiências sucedidas – e sempre na pesquisa de outros materiais e de expressões com objectivos pré-definidos – Rui Melo andou também (e anda) nos espaços da ficção arquitectónica e plástica, criando-os para representações teatrais específicas. Se se tem que enaltecer, mais uma vez, o seu gosto estético, não se pode deixar de apreciar a noção exacta do que é um espaço cénico, envolvido pelo cenário e este com a monumentalidade necessária para ilusionar o espectador, fazendo-o acreditar numa realidade do faz-de-conta.
Antes de frequentar a Faculdade de Belas Artes, Rui Melo conquistara já os códigos específicos da Pintura e reescrevera uma «gramática plástica» pessoal, de forma que o seu «discurso» pictórico fosse entendido no seu conteúdo universal. Sem se deixar algemar a nenhum dos «discursos» que foi explorando, a sua evolução, sobretudo a qualitativa, foi sempre uma constante. E sempre são notórios a sua meticulosidade, o seu perfeccionismo e, até, os seus objectivos. Ele sabe que não sabe pintar. Isto é: ele sabe que é pintando que aprende; que é aprendendo que pinta; tudo contínuo e em continuado. Ele ainda está longe dos compêndios, dos abecedários, das fórmulas químicas para a preparação das telas, dos segredos óbvios sobre mistura de pigmentos e definição de paletas. Fez tudo isso sem aval académico. Até que, um dia, teve de ser.
E foi. Mais uma vez, Rui Melo surpreende. Surpreende, porque sabendo tanto, aceita a sua condição de caloiro, reaprendendo o alfabeto da expressão plástica. Aproveitou o tempo da Escola para reconfirmar o que já firmara, mas, sobretudo, para readquirir conhecimentos que se prendem às mais vanguardistas expressões plásticas. As técnicas são diversificadas e múltiplas. As objectivas fotográficas, por exemplo, vão permitir-lhe uma aproximação, muito válida, aos processos da digitalização. No entanto, nunca enjeitou aquilo que, eventualmente, poderia ser-lhe fastidioso e sem proveito, como as aulas de desenho. O Rui Melo tem também essa vantagem sobre o potencial de muitos outros artistas plásticos: sabe desenhar. Qualquer quadro do Rui mostra o harmonioso domínio da forma, tanto com o lápis como com o pincel.
O Rui Melo, que regressa da Faculdade de Belas Artes, afinal, não é o mesmo. Terá, de alguma forma, perdido a inocência da expressão plástica, perante a abundante, cúmplice e promíscua carga informativa, regulada e reguladora de opiniões, de materiais, de técnicas e, sobretudo, de saberes. Com certeza, não deixaram de lhe dizer que Van Gogh tinha uma predilecção especial pelo amarelo e que, só por acaso, descobriu que o roxo seria a cor da sombra sempre que o amarelo fosse tocado pela luz solar.
E nem mesmo estas trivialidades Rui Melo descurou. Continua a respeitar o princípio de que a sabedoria é uma prática porfiante e porfiada, sem meta alcançável.
Mas, o que pinta Rui Melo? Poderíamos filosofar sobre a estética significante das suas manchas abstractizantes e sentir-nos-íamos satisfeitos por conseguirmos envaidecer o nosso ego artístico. Mas tanto quanto percebo, o abstractismo de Rui Melo não tem a função redutora de nos deixar amolecer pelo que o abstracto tem de indecifrável. Não é só com isso que os quadros do Rui nos seduzem. O que seduz é apreender o equilíbrio entre volumetria e ausência dela, no duelo saudável entre luz e sombra. Aliás, uma das fases mais sedutoras da pintura de Rui Melo aposta em paisagens inlocalizáveis e indefiníveis, mas onde luz e sombra se digladiam para se afigurarem em luminosidades subterrâneas, assim como momento genesíaco da separação das trevas e da luz, ou, porque foi essa a minha impressão inicial, a luz uterina do encanto. A fase dos azuis confirma esse jogo entre o claro e o escuro, o som e o silêncio, o etéreo e o palpável, o odor que se deixa tocar para que se cumpra a paleta dos sentidos.
Se falarmos de sentidos, teremos de falar de sentimentos; se de sentimentos, teremos de falar de afectos. Não sei se é defeito ou qualidade, mas a pintura de Rui Melo desestabiliza apaziguando; serve-se dos sentimentos para provocar emoções; através da abstracção, disciplina a estética da nossa relação com a obra de Arte. E fica com a mesma força lírica da poesia.
Parecem-me ser estes os princípios temáticos que movem Rui Melo; se calhar até, a filosofia que o anima. De resto, não o entendo a reinventar signos e símbolos de interpretação labiríntica; a dar aos enigmas o sortilégio dos sorrisos; a complicar a simplicidade da pintura, para justificar o por que pinta. Aliás, Rui Melo é um substantivo das transparências. Não precisa de recorrer a truques e a adjectivos para apelar ao olhar.
Mas, agora, se tivesse de desenhar um percurso sobre o mapa da vida, referindo o que Rui Melo já cumpriu, penso ser realista se disser que tudo está no princípio. Ele tem muito para fazer, aprendendo; para aprender, fazendo. Assim, garantirá que a sua busca pela perfeição será um trabalho persistente, respeitando os silêncios da paciência, ousando desafiar, com humildade, a alva virgindade da tela, tal como Penélope, que não desistiu de Ulisses, tecendo e destecendo o seu tapete de esperança. Ela sabia que a chegada de Ulisses era sinónimo de perfeição e que esta, há muito, ultrapassara o lado mítico da Arte. Por isso, um artista, nunca pode desistir de sonhar.
Álamo Oliveira
in: Diário Insular — Suplemento «Vento Norte», 8 de dezembro de 2005. Exposição na Carmina Galeria de Arte Contemporânea.
Por sua vez, Rui Melo apresentou, na Carmina Galeria de Arte Contemporânea, a sua mais recente colecção de quadros. Cumprindo os seus desígnios de artista, sobretudo na sua relação com a cor e com a sua concepção de pintura, Rui Melo volta a afirmar a sua maturidade, recriando e recriando-se em matérias convencionais a que junta os desafios técnicos que vai inventando, surpreendendo-nos e deixando-se surpreender também.
Na verdade, há um apuramento que deriva da contenção cromática, das transparências e até de uma aparente displicência que pode ser detectada no livre comportamento da tinta sobre a tela. Depois, há o saber ocupar o espaço do quadro, de que resultam motivos estéticos que devolvem à pintura a beleza que deve figurar em qualquer obra de arte. «Blue» e «Ensaio sobre a serenidade» sintetizam, titularmente, os dois conjuntos de quadros desta exposição de Rui Melo. Cada quadro está unido por um «discurso» cromático que nos informa que a pintura, mesmo quando formalmente abstractizante, tem inteligibilidade e, por isso, capacidade de comunicação estética.
No catálogo desta exposição, Ivo Machado assina o texto de apresentação.
Partilho da convicção de Luís Cardoza y Aragón que "a poesia é a única prova concreta da existência do Homem" mas o gozo dessa afirmação conduz-me a outra, que poesia e pintura são o espelho e, ao mesmo tempo, arqueologia da humanidade. E essa quase epígrafe é recusa ao esmorecimento na certeza dos labirintos da água pois quando não houver dia nem noite ou muralha ao redor do Tempo, a crença na arte será a salvação, se considerarmos que a vida é muitas vezes uma ferida absurda e tudo é demasiado fugaz não fosse a certeza na construção de uma escultura habitável. E olhando o nosso Tempo, que fé ou fé em quê, poderá mover a humanidade ameaçada de desaparecimento, a empreender uma Obra destinada a gerações que muitos consideram impossível de imaginar? É esta água de pedra inundada de luz que parece cair do umbigo da terra escrevendo uma caligrafia solar que desejo entender neste azul infinito ou infinito azul que acolhe os raios cósmicos como experimentando um Universo de júbilo pela nostalgia do que terá sido a Criação do Mundo. E este azul nostálgico parece querer escapar ao mundo de azedume que nos cerca; este azul da Pátria mais íntima da linguagem humana que deseja devolver um passado intacto; este azul que por vezes escapa para as cinzas como a contradizer Quevedo quando lembrava que as cinzas dos ossos jamais terão sentido ou Rimbaud que declarava que as vogais não têm cores. Porém, um azul anunciador de pequenas auroras como o anunciaram em cada tempo e em cada época todos os grandes mestres, sempre partindo de uma mancha, pois já Leonardo dizia que não é o modelo que se deve copiar mas a mancha de humidade no muro que está por detrás.
A imagem nasce da alucinação e aparece, efémera, e aquele que a recebe transforma-a de novo, emergindo espaços que uns não entendem mas neles moram as forças que tantas vezes desconhecemos de onde vêm e, perante a serenidade ou doçura, o mundo reformula o silêncio dominado pelos movimentos das formas que podem ser línguas de fósseis falantes numa dança encantatória que desvenda o mundo espantoso narrado pelo artista que nos parece querer lembrar de que, à origem de onde partimos, regressaremos um dia, cedendo-nos para essa viagem a sua bússola secreta e o navio que atravessa oceanos de glória. A liberdade chega singular mas como na poesia está onde passa o mistério e onde acontece o inimaginável, num humilde desejo de felicidade ou mesmo na liberdade de renúncia a esse desejo de felicidade. Eis-me testemunha de um momento mais na reconstrução do mundo, convertido naquele que olhou uma onda no filtro do invisível e seguiu com o coração para onde os matemáticos seguem com a razão. Há neste azul, repito, azul infinito ou infinito azul, a impressão digital -- de um criador que não se limita a insinuar mas reescreve porque sabe da urgência em ordenar tudo como se ordenássemos a infância ou um país disperso, que sabe que os homens sempre viveram nomeando as coisas, e o pintor como o poeta, procura perceber porque deseja comunicar a maravilha, cruzando o mistério sem mais fé que a sua linguagem própria, e talvez por isso se atreva ao achamento do sublime para comprovar que existe, acreditando que chegará o dia em que a humanidade se amará como um só casal mesmo na ausência de um tempo geológico. Rui Melo não se detém na contemplação pois, pior do que a morte, é limitarmo-nos como dizia Torga, "a investidas de namoro à natureza quando a natureza provavelmente desconhece que existimos". Ao fim a consciência -- porque consciência do artista maior -- que a arte é uma forma de abolição do caos.
Ivo Machado — Biscoitos, 28 de Agosto de 2005
in: Açores Magazine, 24 a 30 de outubro de 2004. Exposição colectiva Evocações Paisagísticas — Uma Antologia de 10 Anos de Pintura nos Açores, Teatro Micaelense, Ponta Delgada.
«Evocações paisagísticas» é o tema da exposição que inaugurou no Teatro Micaelense — Centro Cultural e de Congressos. Trata-se de uma antologia de 10 anos que engloba 66 trabalhos de 21 artistas que escolheram a paisagem como técnica do que propriamente como tema. A mostra divide-se em dois sectores distintos: obras realizadas entre 1994 e 2003 com um máximo de três trabalhos por pintor, e um outro que recolhe os últimos trabalhos traçados durante o corrente ano. A evocação resulta de um exercício de cruzamento estilístico que marcam a história da arte dos Açores.
José Nuno da Câmara Pereira, Tomaz Borba Vieira, Ana Vieira, José Maria França Machado, Carlos Carreiro, Maria Tomás, Luís França, Ana Paula Dourado, Miguel Rebelo, Urbano, Filipe Franco, Carlos Mota, Nina Medeiros, Paula Mota, Victor Almeida, Luís Brilhante, Rui Melo, Carlota Monjardino, Catarina Castelo Branco, João Decq e André Almeida e Sousa compõem o cartaz de artistas em exposição no Teatro Micaelense até Janeiro de 2005.
No trabalho de Rui Melo o espaço abre-se para lá do primeiro plano do quadro. São-nos apresentados perfis no espaço. É na relação dos perfis dos elementos com o espaço envolvente que é sugerida a distância evocativa da paisagem. Nestas pinturas, o processo torna a ser relevante enquanto movimento que revela ou encobre as formas que se desenham num céu por vezes denso, por vezes longínquo.
[Excerto do texto de apresentação da exposição colectiva]
A tarefa de escrever sobre pintura é ingrata — ela está fatalmente condenada à expressão de uma subjectividade. Qualquer pintura tem a sua própria forma, que não é susceptível de ser expressa noutra linguagem. A única coisa que conseguimos verbalizar são indícios que procuramos racionalizar no discurso que construímos sobre arte.
in: Catálogo ZIEL1=KUNST=ZIEL1 — Workshops 2001/2002/2003, edição Lex Liszt 12, Oberwart, Áustria, 2004. Obra apresentada: acrílico sobre tela, 106×132 cm.
Esquerda: Expresso — suplemento "Actual", 20 de dezembro de 2003. Texto de José Luís Porfírio. Exposição colectiva Ziel 1 = Kunst = Ziel 1, Bratislava, Eslováquia, novembro de 2003 | Direita: Açores Magazine, 25 a 31 de maio de 2003. Texto de Rui Leite Melo, fotografia de Eduardo Resendes.
Um mundo de referências entre a pintura e a imagem, o suporte informático e o suporte fotográfico, a colagem ainda. O conjunto imagem matéria, os ritmos da simetria e da repetição, fotográficos, ainda que com tratamento digital, são subvertido pela mancha invasora de uma ocultação. Matéria, memória, jogo, este artista não tem medo de ter passado, o seu e o da(s) sua(s) disciplinas(s), e não há também que ter medo do seu futuro; por vezes, o bonito vem à tona, o bonito de mais quero dizer, mas há sempre uma maré de matéria, um «splash» que tudo (quase tudo) ocula. No seu conjunto, uma obra a crescer, e bem!
A Galeria Arco 8, em Ponta Delgada, inaugurou no passado dia 9 de Maio, uma exposição de artes plásticas de Rui Melo. Patente até ao próximo dia 1 de Junho, a mostra promovida pela Arco 8 dá a conhecer o mais recente trabalho daquele que é um dos mais promissores artistas plásticos de origem açoriana da actualidade. Se basicamente todos os trabalhos expostos sustentam-se nos mais amplos conceitos da pintura, naquela exposição, o trabalho de Rui Melo faz-se sobressair pela multiplicidade de técnicas empregues, como igualmente pela qualidade final dessa mesma técnica. Em concreto, o trabalho do jovem terceirense Rui Melo baseia-se na manipulação técnica, nomeadamente da imagem, suportada pelas colagens e registos fotográficos.
Em exposição na Galeria Arco 8 estão cerca de quatro dezenas de peças que atestam estar-se perante um artista plástico da nova geração a quem não será desprovido augurar-se um papel relevante no âmbito das artes plásticas.
No campo ilimitado da intervenção artística que o séc. XX proporcionou, vemos o jovem artista num saudável jogo exploratório, como de um pêndulo oscilante se tratasse em busca de sentido e espaço de identidade.
Dá gosto vê-lo navegando no plural labirinto da interdisciplinaridade, manipulando recursos tradicionais ou tecnologias de onde sobressai o computador num entendimento estético que o seu tempo lhe permite e lhe propõe.
Da fotomontagem dos seus auspiciosos auto-retratos gráficos ao tributo prestado à pintura antiga, numa salutar viagem de reconhecimento aos seus dilectos antepassados Bosch, Tiepolo, Géricault, e outros, em "flashbacks", fragmentos da memória que o alimentam, sem perder neste perscrutar retrospectivo o pulsar da contemporaneidade.
Neste olhar para trás, ganha balanço para novas viagens ao sabor de uma aventura que o leva a mergulhar no plasma delirante da matéria líquida (oh! Como eu me reconheço aí também), deixando que a imaginação da matéria o deslumbre e o conduza à porta do caos sensível – esse mistério de delírios que os fluidos revelam – e aí saber parar a tempo; o que aconteceu contigo na série de trabalhos que se seguiram com as figuras recortadas, contidas e suspensas no silêncio raso da tela.
Não surpreende que uma nova investida nasça da experiência de contrários e remeta o artista para uma assumida relação com o conflito, agora já não só no plano formal, mas também no campo semântico, na série do conjunto de imagens a que chamarei paisagens foto-mecânicas e onde o "ruído" reaparece mais problemático, mercê de uma vontade de provocar, de impor objectos heteróclitos na paisagem (?) suscitando um confronto gramatical da mais complexa solução plástica.
A aventura prossegue em felizes fotocomposições em faixa contínua onde se desenrolam instantâneos arquitectónicos, anatómicos ou de design e se colam e repetem em frisos longitudinais, de um raro equilíbrio e beleza formal.
Resta-me augurar a Rui Melo um futuro promissor – não sem antes lembrar-lhe a necessidade de ciclos de silêncio e reflexão após cada etapa deste peregrinar – a fim de cimentar as propostas de um discurso estético que tantos desejam se torne constante e duradouro.
José Nuno da Câmara Pereira
in: Diário Insular, 13 de dezembro de 2003. Texto de Álamo Oliveira — Palácio dos Capitães Generais, Angra do Heroísmo.
Rui Melo expõe no átrio do Palácio dos Capitães Generais uma colecção de quadros que apelam à visita. E esse apelo desde logo se justifica se tivermos em conta o percurso deste jovem artista, que se vem afirmando, de forma segura e serena, no espaço das artes plásticas dos Açores e em outros com fronteiras maiores. Mas há também que referir que a presente mostra decorre do que foi o seu «aprender» na Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa, onde se licenciou.
Esta última referência justifica, por sua vez, o conteúdo da exposição, ordenada numa seriação de quadros onde Rui Melo debita múltiplos aprendizados técnicos, que foi experienciando e dos quais retirou efeitos estéticos surpreendentes. E há, sobretudo, a ousadia de reconciliar técnicas que emergem de materiais diferentes e que se apaziguam em suportes diversos, embora todos fazendo parte daqueles que qualquer artista plástico, hoje, pode e deve utilizar. Dominando uns e outros, os resultados são encantatórios, para mais podendo ser vistos como livro que se lê página a página. É esse o efeito obtido por uma montagem que goza com o próprio espaço e que a seriação temática evidencia sem esforço, graças também à sua arrumação cromática.
A paleta de Rui Melo continua contida em grande parte dos quadros desta exposição, optando por tonalidades que se desdobram em subtonalidades, mas que relevam profundidade, volume, transparências, contrastes. É uma coloração que traduz a forma apreensiva como Rui Melo apreende os quotidianos do Mundo, a que não é alheia o seu entendimento do que a Arte, enquanto objecto partilhável, deve seguramente transmitir. A sua contenção cromática é sinónimo de inquietações, medos, angústias, a par de denúncias, de conflitos e de silêncios.
Foge deste contexto a série Sky 9270 onde é utilizado um festivo(?) cromatismo – cores fortes, quase puras, que se contrastam em manchas rigorosamente medidas, num afrontamento de forças que se auto-equilibram como se cada cor estivesse suspensa no «arame» invisível de si própria. A sua interligação acontece no fascínio que essas mesmas cores exercem umas nas outras.
Nesta mostra, Rui Melo expõe-se também. O seu talento está seriado nas paredes do átrio do Palácio, mostrando a sua honestidade nos processos técnicos que utiliza, todos eles experienciados até ao conseguimento, no pormenorizado acabamento de cada quadro, na resolução que encontra para o seu «discurso» estético, sabendo quando e como deve colocar o ponto final. Honestidade também na aceitação de que o acto criativo é a inquietante e insatisfeita procura da perfeição, sabendo que ela, sendo inatingível, possui aliciantes que, uma vez provadas, são perseguidas, gostosamente, até ao infinito.
Álamo Oliveira — Diário Insular, 13 de dezembro de 2003
Convite para a exposição colectiva Ziel 1 = Kunst = Ziel 1 — 3.º Workshop Internacional com artistas da União Europeia e da Eslováquia. Vernissage: 21 de novembro de 2003, Bratislava, Eslováquia. Iniciativa da eurodeputada Christa Prets.
Iniciativa da eurodeputada austríaca Christa Prets, este workshop reuniu artistas de toda a União Europeia em torno do tema "A Arte da Abertura — Até onde vai a Europa?", nas áreas das Artes Visuais, Música e Dança, numa reflexão sobre a identidade europeia a poucos meses da histórica adesão de dez novos países à UE. A exposição esteve patente até 9 de dezembro de 2003 na Sala de Exposições da Rádio Eslovaca, em Bratislava. Portugal foi representado por Rui Melo e José Quintanilha.
Esquerda: Jornal A União, João Afonso, 12 de setembro de 2000 | Direita: Diário Insular, Álamo Oliveira, 21 de setembro de 2000
Açoriano daqui (Ilha Terceira, 1973, jovem portanto), Rui Melo, em catálogo da exposição de obra sua nos Capitães Generais, referencia-se como aluno de Artes Plásticas da Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa. Aluno ainda, mas a encontrar correspondência com a realidade de cada uma das obras expostas e com o certame, extenso e desmultiplicando abordagens várias, haveria que significar encontrar-se o pintor, já em pleno caminho, sendo de saudá-lo.
O próprio catálogo, na sua apresentação, ao mesmo tempo artística e poética, dá, também, já por si, o sinal + duma presença para imediato acolhimento.
São passados quatro anos que – aí vai com palavra dura – o Rui, moço "encascado" em modéstia, trazia do norte da "ilha" (dos Biscoitos) uma reveladora amostra de Arte. Era tudo ali, à entrada da casa da Alfândega (tudo o que trazia), uma série de vários sinais de que Rui Melo estava a revelar-se para próximo futuro. Estão, agora, o tempo e a escola a confirmar um talento desenvolvido; o bom gosto a pontificar (é notar a distribuição poética das dezenas de "provas" – todas bem provadas – pelo vasto espaço do Palácio que é o dos "baixos"); e, sem dúvida, a categoria da obra exposta (qualidade da pintura, excelências cromáticas, audácia propositiva nas abordagens com os materiais dominados, etc.). Beleza em multiplicidade criativa, se em resumo.
Abrindo a escrita de um pintor como Dacosta, enviada de Paris (1950) para publicação em Lisboa, e a propósito de um "salão" de pintura na capital francesa, lê-se que "a arte não tem necessariamente objecto preciso a que deva resposta". Surge aqui a breve transcrição – e há tanto que aprender na obra escrita de Dacosta, pelo livro Dacosta em Paris (ainda ausente das vitrinas livreiras da cidade) – para dar a entender a quem percorre as "nossas" exposições que visitar Rui Melo é dar de frente com uma realidade entre só "algumas verdadeiras realidades plásticas" do meio.
A realidade Rui Melo é realidade de escola... J.A.
O certame (de 8 a 22 de Setembro) foi organizado pelo INATEL, ganhou a colaboração da Presidência do Governo Regional e teve apoio da Casa da Cultura de Angra do Heroísmo.
Rui Melo, no intervalo do ano lectivo na Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa, costuma expôr em Angra os seus últimos trabalhos. E, desde logo, deve relevar-se o facto de apresentar, sem contaminações de academismo, o que desenvolveu em termos técnicos, fazendo por firmar, paralelamente, o seu entendimento de pintura — entendimento que evolui, que matura, que apura e que refina. De facto, Rui Melo possui o talento bastante para prosseguir e perseguir um aprendizado que não tem limites, fazendo a sua própria pesquisa, já que a pintura é também um desafio laboratorial, alquímico, animado por conquistas sempre inconclusas e também pela obtenção de efeitos inesperados e, por isso, irrepetíveis e surpreendentes.
Nesta mostra — a maior colecção de trabalhos de Rui Melo apresentada até hoje —, há a preocupação de dar a observar o caminho de aprendizagens múltiplas, não encobrindo as dúvidas, os anseios, os conseguimentos e os imprevistos, tomando-se fácil ao olhar captar as diferenças que o tempo veio pontuando com afirmações seguras do saber pintar. Os trabalhos estão seriados por temas e técnicas, deixando uma leitura inteligível, mas com a margem de liberdade suficiente para proporcionar muitas outras leituras. O visitante deixa-se arrastar pelo desafio do primeiro olhar, mas, de seguida, não deixa de se confrontar com outros olhares. Neste sentido, a pintura de Rui Melo é hábil e eficiente.
Nesta exposição, duas séries recorrem ao fotograma e à fotomontagem. Nelas, R. M. quis experimentar, com as suas próprias mãos, um discurso plástico à margem da pintura. Deu-lhes título: "auto-retrato e "save our souls". A retransformação das imagens deixam em evidência um amontoado de contradições, onde os valores societais se atropelam, mudam de escala, se agridem, se anulam. Surgem outras imagens —, outras propostas de valores não menos alienadas e não menos realistas.
As restantes composições ficam-se pela pintura. E pintar é o que Rui Melo faz cada vez melhor, tanto a nível do tratamento plástico, como da dosagem cromática e da forma como ocupa o espaço da tela. Os elementos da natureza continuam a dominar a sua paleta, não pela figuração dos mesmos, mas pela inquietude cromática que deles deriva: os amarelos de fogo com seus lastros de negro e de castanho, a que se juntam vermelhos eruptivos; os ocres da terra com as transparências subtis do ar e os movimentos da água, com que cria frissuras de luz e multidimensiona o espaço.
Nesta exposição, Rui Melo parece querer deixar-nos uma certeza: pintar é um acto de porfia que questiona cada ponto de luz e cada gesto; que elege o inacabado para perseguir a perfeição e que a perfeição é inatingível como tal. Rui Melo tem a consciência disto mesmo. Daí, o seu porfiar honesto na exploração do seu talento e no percorrer seguro e sereno dos caminhos da expressão plástica.
21 de setembro de 2000 — Diário Insular, pág. 3
Catálogo da exposição rui melo pintura — Simpósio Filamentos da Herança Atlântica, Tulare, California, 1999. Texto de Emanuel Félix.
O signo desta pintura é um signo de fogo. Desde a sua constituição matérica à respectiva configuração iconográfica. Ou não resultassem estes espaços de insondável profundidade, estas paisagens onde o assomo da luz se revela extremamente efémero da exploração exaustiva de uma paleta proveniente nem mais nem menos que do calor da Terra. São os pigmentos naturais, os marfins queimados, os sépias e os negros da china. São as terras acrílicas, os ocres e os almagres, os seus aditivos, ligantes e médiuns. A todos trabalha arduamente este operário de Deus, no seu athanor. Aí onde o alquimista aprende que a matéria é quase sempre insubmissa, mas dela se apropria, tornando seu o que ela tem de imutável e prodigiosamente verdadeiro. Porque só esta mútua cedência, este sábio diálogo entre forma e fundo, entre a substância e a mão podem dar lugar ao que se chama "obra".
Assim terão nascido estas composições: cenários nocturnos e intemporais, planicíes crepusculares, pequenas e súbitas crateras a onde aflora o magma incandescente, pântanos de águas fosforescentes e tóxicas, oceanos quietos sem fim onde tivesse mergulhado Absinto, o astro poluidor. Tudo isso e o seu conseguimento. Como se o autor abrisse par em par as portas da sua oficina hermética e real.
Poderiam ser imagens da Terra em diferentes instantes da criação. Mas nunca apenas isso. Porque a evidente força telúrica que domina o gesto, o pincel, a espátula, a inquietante surpresa dos pequenos acidentes sobre as grandes superfícies só aparentemente monocromáticas – são mais do que um indício: são uma consequência. Diria mesmo: são uma geografia. Senão, repare-se que nestas paisagens sem céu (ou onde o céu se confunde com a terra, como uma hierofania) há espaço para a insinuação das chuvas, das águas revoltas e dos calhaus da costa. Para os lugares da intimidade e do afecto do Pintor.
Há, porém, uma outra margem. De onde partem barcos incendiados. Mas é ao nosso encontro que se deslocam, como uma premonição, uma antecipada advertência. Trazem o fogo do Espírito e os seus dons irrecusáveis. Do Espírito que assiste à Bondade, ao Conhecimento e à criação artística.
Angra do Heroísmo, 17 de Fevereiro de 1999
Emanuel Félix
in: Atlântida — Revista de Cultura, Vol. XLII, 2.º Semestre de 1996. Instituto Açoriano de Cultura, Angra do Heroísmo.
A exposição de Rui Melo foi, com efeito, «uma lufada de ar fresco», como escreveu Álamo Oliveira. «Se estética e tecnicamente – disse aquele poeta e artista plástico – Rui Melo apresenta já uma maturidade digna de registo, impressionam também os impulsos e a forma que animam o artista a ocupar o espaço da tela».
Há muita poesia nesta pintura de Rui Melo – o que justifica plenamente as palavras de Tristão de Andrade impressas no catálogo: «A simplificação da pincelada, o gestualismo do traço, a superfície da cor contínua e outros pormenores que notamos nesta pintura e que a fazem parecer simples é, de facto, a essência do génio, com muito, muito trabalho. É que simplificar, apanhar o essencial, é sempre o mais difícil».
A exposição de Rui Melo acabaria, assim, por ser a mais importante das apresentadas durante as «Sanjoaninas/96». Ele chamou-lhe apenas pintura. «Sem dúvida – Pintura. Da boa. Que apetece olhar e fruir» – concluiria Álamo Oliveira.
Texto de Álamo Oliveira, incluído no folheto da exposição "Rui Melo expõe na Casa Grande". Organização Casa de Cultura da Horta, julho/agosto de 1994.
O conjunto de quadros que Rui Melo apresenta revela, de imediato, que o artista existe. Trata-se de existência flagrante que a própria dispersão dos materiais utilizados confirmam.
E se é verdade que essa dispersão é o resultado duma pesquisa inquietante sobre a captação das formas e seus volumes e dos comportamentos plásticos da matéria em confronto com os resultados a obter, é também notória a perseguição estética que Rui Melo move ao que se propõe expressar. Por isso, é ainda apreensível a utilização de um discurso plástico consistente, revelador de considerável fluência de matérias e de processos técnicos, onde pintura e desenho coabitam quase sempre.
Neste espectro, onde o figurativo estabelece relações de expressividade com o meramente abstracto (o retrato de “Gilberto” é bastante exemplificativo), revela-se o seu estado de permanente inquietação perante a necessidade de transmitir, plasticamente, o seu mundo de emoções, de fantasias, de fascínios, de mágoas — também. E surpreende, sobretudo, o sentido de teatralidade, mesmo quando essa referência é somente sugerida. Mas, nas “cenografias”, é por demais evidente o tratamento luminoso dos espaços, como se estivesse iminente o desenrolar da acção.
Importa ainda relevar, para além da já considerável maturidade e de uma postura humildemente digna, o seu comprometimento com a Arte, fazendo passar a mensagem sem recorrer a qualquer agressividade, antes quedando-se no que o olhar constata.
Eis um saboroso momento de sentir o que a Arte é, mesmo que se depreenda que os caminhos de Rui Melo não estão ainda definitivamente definidos. Mas, são infinitos. E esse é o desafio que qualquer artista gosta de enfrentar e de afrontar.
Álamo Oliveira
Angra, VII . 94