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in: Jornal “DIÁRIO INSULAR”, 4 de outubro de 2019. Jornalista CARINA BARCELOS.

A série Paisagem Transversal (…) de Rui Melo, pode considerar-se a representante, numa geração mais recente, de uma linha experimental pictórica do encontro fenomenológico com as ilhas vulcânicas - na contracorrente da visão pitoresca das ilhas – que já se manifesta nas gerações anteriores em pintores como o açoriano José Nuno da Câmara Pereira (1937-2018) ou o artista canário César Manrique (1919-1992), cujas obras são marcadas pela experiência da eminente atividade vulcânica.

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O carácter telúrico das ilhas vulcânicas está patente na série Paisagens Transversais que reflete a sua íntima relação com estranho território que emerge nas ilhas das ilhas vulcânicas (…): destaca-se pela ausência de horizonte e pela imersão no interior da Terra, no que está para além da superfície.

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Ao recusar uma linha direta entre a imagem e as palavras, estas pinturas resistem à interpretação que procura “descobrir” o que as formas pretendem representar ou qual a intenção do autor: questionam o conceito de racionalidade, o qual está subjacente a pré-existência do logos e, portanto, de uma lógica causal entre a intenção e o efeito, decifrável, totalmente, pelas palavras. Não há formas acabadas nesta série, apenas manchas que não têm princípio nem fim. Deste modo, as partes libertam-se da sujeição ao todo – inerente ao conceito do belo orgânico e à ideia de perfeição – assumindo-se o fragmento como tal, com a sua irregularidade e imperfeição.

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Até ao século XX, o género da paisagem e o retrato estiveram imbricados na primazia da visão que moldava tanto a natureza ou o outro como algo a desfrutar. Espelhavam uma estrutura de poder que definia as coordenadas verticais e horizontais segundo uma lógica dicotómica a partir da qual se ordenavam os critérios de valores. Ao evitar uma percepção meramente visual, a série Paisagens Transversais opõe-se a duas correntes principais na tradição pictórica da paisagem: o distanciamento e o posicionamento perpendicular relativamente à terra que permitem o apequenamento pitoresco da natureza; uma distância que leva a um voyeurismo do sublime, tal como foi descrito por Burke (1998 [1757]), atividade que deriva o seu prazer da suspensão do perigo garantido pela relativa proteção da distância.

Rui Melo desconstrói aqui este paradigma tradicional. Nas suas pinturas são os materiais que falam, sem serem submetidos à vontade do pintor e que revelam, de forma espontânea, um acordo análogo ao da natureza. Neste sentido, realmente, não são “paisagens”: a instabilidade da natureza não é entretecida pelo artifício da razão do homem que procura encontrar uma ordem no emaranhado dos fios da natureza. Nas manchas de cor que se movimentam na escuridão de um mundo sem gravidade nem fonte de luz exterior, exprime-se a própria matéria, enquanto tal, é a natureza profunda, o sentir que escapa à fixidez necessária para o comércio das coisas e palavras entre os homens. As pinturas de Rui Melo são, assim, paisagens interiores que evocam, aproveitando o acaso do próprio desenvolvimento dos materiais, numa atitude aberta ao fluir da natureza.

Entendendo o natural como o que se auto produz sem a intervenção do homem, nestas pinturas esbate-se a fronteira entre o natural e o artificial, o sujeito e o objeto, pois são os materiais que, pelas suas diferentes características, se expandem e interagem, criando formas que se percecionam como paisagens de uma força telúrica, num equilíbrio precário e efémero.

Existe, assim, uma analogia entre os materiais pictóricos, a natureza da matéria telúrica da própria terra e os nossos sentidos e faculdades, numa propensão natural para a sintonia. A atitude simbolicamente patente nas pinturas de Rui Melo, não procurando ter o controlo total sobre o seu processo criativo, aponta para uma fuga ao paradigma tradicional do Ocidente, em linha com uma atitude de não apropriação da natureza. Neste sentido, através de um gesto não dominador sobre os materiais da sua pintura – procurando apenas orientar a sua manifestação no suporte – testemunha o seu respeito e sintonia para com as forças telúricas, parte integrante da sua própria natureza, enquanto ilhéu.

ANA NOLASCO

Doutorada e Mestre em Estética e Filosofia da Arte pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa
e licenciada em Artes Plásticas – Pintura pela Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa.
Professora adjunta do Instituto Politécnico de Lisboa. Membro da Unidade de Pesquisa em Design e Comunicação (UNIDCOM) do IADE-U.

Excerto do artigo “Islandscapes of the Azores and Madeira in the Art of Nuno Henrique, Maria José Cavaco and Rui Melo”
publicado em SHIMA: The International Journal of Research Into Island Cultures, 2019, Vol. 13, No. 1, 77-99.

Artigo integral (versão em inglês) em: Shima, Volume 13, Number 1-2019
https://shimajournal.org/…/v13n1/08.-Nolasco-Shima-v13n1.pdf

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